Blog do Prof. Francisco de Assis Sousa

Artigo: Cafeína energúmena e os perigos da educação (Por Rômulo Rossy Leal de Carvalho)


Foto: Politize.comFilósofo e educador, Paulo Freire
Filósofo e educador, Paulo Freire

Por Rômulo Rossy Leal de Carvalho

Em memória de Paulo Reglus Neves Freire e Manoel José Bomfim

Ele dizia que ninguém se tornava professor às 16h de uma terça-feira, e estava certo. O mesmo se aplica a um presidente de uma República federativa. Assim como se frustra um processo educacional que não é planejado com lisura, antecedência, autoridade e experiência, fracassa também uma administração que toma por base o ataque acrítico, fundamentado na parvoíce e alimentado pela descortesia.

Em texto que escrevi sobre o médico Manoel Bomfim, nascido em Aracaju, Sergipe, em 1868, que tratou dos “males de origem” da América Latina, fiz questão de sinalizar algo frisado por ele com proeminência: a educação é a resolução dos problemas deste nosso vasto continente. Mais que isso, seria ela a lavanca para a superação da desigualdade social e econômica. Ele dizia isso em 1905, ou seja, há cento e quinze anos.

Já se passaram muitas décadas de lá para cá, e o que continua perceptível, porém, é que a educação é um perigo, a crítica, a expansão e a propagação do conhecimento geram consequências lesivas às estruturas que aparelham a sociedade brasileira, especificamente, em um sistema dual dos que devem e dos que não devem saber. Isso é um pouco da cafeína energúmena.

Café é o máximo, mas em excesso é danoso como toda substância. É, por extensão, energúmeno se considerarmos a lógica da inutilidade. Pois bem, o Brasil é um dos maiores produtores de café do mundo, mas amarga nos índices de desenvolvimento da educação.

Foto: ReproduçãoCapa do livro América Latina: males de origem, do historiador sergipano, Manoel Bomfim
Capa do livro América Latina: males de origem, do historiador sergipano, Manoel Bomfim

Da década de 1990 para cá, uma “justificativa pífia” foi apontada pelo então nomeado “energúmeno”: “Com ares de pós-modernidade, o neoliberalismo insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social, que de histórica e cultural passa a ser ou a virar quase natural. Frases como ‘a realidade é assim mesmo, o que podemos fazer?’ ou ‘o desemprego no mundo é uma fatalidade do fim do século’ expressam bem o fatalismo dessa ideologia e será indiscutível essa vontade imobilizadora”.

Eis no excerto supramencionado, uma palavra “perigosa”, que tem despertado uma execração deprimente e quase patológica: ideologia. A ciência e a educação, mais uma vez, são apontadas como perigos estupefacientes. Não se prosterna aqui uma apologia àquele que, tendo escrito mais de duzentos livros, não hesitou em pegar no giz, escrever, teorizar, caminhar, avaliar e reavaliar  o que disse e o que escreveu, além de alfabetizar ao ar livre. Sua história, felizmente paginada em inúmeras biografias, e testificada como a do terceiro autor mais citado do mundo na área de Ciências Humanas, não será rasurada por uma expressão esdrúxula, proveniente de uma interpretação de um sujeito que decidiu polarizar o mundo em que vive: “eu, o do bem; o outro, o mal”, em um maniqueísmo estapafúrdio.

As coisas não são bem assim. Ciência, presidência, ao menos as sérias, não são ou devem ser objetos de escárnio e de descompostura. Se assim fossem, esvaneceriam sua essência e resvalariam ao ralo do senso comum de que quem nada estudou com profundidade pode de tudo saber com qualidade.

A educação humaniza as pessoas e, para Paulo Freire, educar não se circunscreve a buscar a autonomia do educando a partir da experiência e da corporificação do exemplo, mas é também uma atitude de esperança, pois, ainda segundo o patrono da educação no Brasil, ela faz parte da natureza humana: “Sem ela, não haveria história, mas puro determinismo. Só há história onde há tempo problematizado”.

Educação – Freire, Bomfim – só existirá de verdade quando o valor que lhe é devido for atribuído em gênero, número e grau. Do contrário, continuaremos a nos amofinar, a testemunhar e assistir a palermices truncadas, desconexas e levianas, oriundas da empáfia desastrosa dos mandatários da ignomínia. Até a próxima xícara de café – com três colheres de chá de açúcar, se possível!

Rômulo Rossy Leal Carvalho é formando em História (UFPI/CSHNB), Auxiliar Administrativo (IPR/UNISC), escritor e membro da Academia de Letras do Vale do Riachão (ALVAR)

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