Blog do Prof. Francisco de Assis Sousa

Crônica: Esse nome, Anne! (Por Rômulo Rossy Leal Carvalho)


Foto: ReproduçãoAnne Frank retratou os horrores da II Guerra Mundial.
Anne Frank retratou os horrores da II Guerra Mundial.

Por Rômulo Rossy Leal Carvalho

Um caráter sarcástico, embebido de sentimentos controversos, Anne. Ah, esse nome! Indizível na sua explicação mais sorrateira. Pequeno em extensão, gigantesco em significado. Pena que a menina que sobreviveu nele tenha sido mutilada pela atrocidade alheia, maléfica à vida, embaixadora da morte. Na sua última carta, Anne, você revelou sua dupla identidade. Aliás, o seu eu de espírito, a Anne profunda.

            Datada de 01 de agosto de 1944, sua despedida, em carta, não poderia começar senão com o que encerra “um feixe de contradições”. Aos mais incautos, isso demanda tempo até que se compreenda. Aos leitores assíduos, seja da história ou da literatura, queda-se claro: a sua epístola terminal, em diário, descerraria: quando não se entende o outro, não se vive, se propaga e executa a malevolência. O bem não tem lugar na incompreensão absoluta, na consequente e imediatista discriminação.

            Anne, não te compreenderam. Nem a nós, que hoje continuamos a clamar por justiça. Como seria o mundo com mais Annes, Marias, Josifinas? Como será o futuro em que a morte prevalecerá sobre a vida por questões ideológicas, sanitárias, políticas? Anne, a guerra acabou, mas os motivos que a deflagram não. A guerra continua, em novas roupagens, Anne.

            Emudeceram seu leve, porém forte corpo, Anne. A impressão que tenho é que seu pó está na ventania da memória que foi legada em seu diário. Anne, temos muito a construir, a ler, a interpretar, a escrever. E como você entendia isso! Anne, o mundo não acabou e não estamos a sós nele. De você, não tenho pena, mas orgulho. Anne, nem todos entendem a si mesmo – daí a profundidade do problema. Pessoas e mais pessoas matam sem saber a razão, porque não têm razão e nem sabem o que ela significa.

            Ah, Anne, mas você não era feita de razão, embora a compreendesse. Você foi feita de amor. E o amor e a razão são duas coisas diferentes sobre as quais dificilmente conseguimos vislumbrar um conceito à altura. Foi pela assustadora definição de razão científica que perseguiram muitos dos que abraçaram a arte, a escrita, como você, Anne. Tanto é que o próprio conceito de educação foi repensado na Escola de Frankfurt. 

Foto: ReproduçãoManuscrito no Diário de Anne Frank
Manuscrito no Diário de Anne Frank

           Que educação e civilização eram essas capazes de promover uma das mais destrutivas carnificinas organizadas da história? Repito, Anne: a guerra não tem uma razão à altura, mas apresenta sua razão: “é pela civilização, pela unificação, por uma só raça na terra”. Que estupidez, não é, Anne? Onde que o mundo é um só e as pessoas pertencem a uma só raça, Anne?

Lágrimas internas escorrem por minh’alma ao recordar seus cabelos esvoaçando sem tê-la conhecido, Anne. Não tivemos tempo, e nem nascemos em épocas iguais. De você, tenho uma memória. A agulha da morte a feriu antes que pudéssemos conversar. A distância, o espaço, o tempo não nos ajudaram. Você, Anne, continua, de alguma forma, naqueles que, além de Amsterdã, a visitam, tetricamente, em seu diário: eu, em 16 de junho de 2020, prestes a completar a marca de 76 anos depois do dia que em que você escreveu.

Rômulo Rossy Leal Carvalho é escritor e acadêmico do curso de História da UFPI.

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