Blog do Prof. Francisco de Assis Sousa

Crônica: Trapo social (Por Francisco de Assis Sousa)


Foto: professor franciscosolidão
solidão

Por Francisco de Assis Sousa

Domingo de carnaval. Festa na avenida. A alegria contagia o espírito dos foliões. Em outro ponto da cidade, um homem, solitário, encara a noite e o tempo, sentado no banco da praça. A pouca claridade ofusca seu rosto. Pessoas passam em direção a folia e ele lá, passivo, cabisbaixo, imóvel.

Convencionalmente, a pessoa é um ser social, produto de uma convivência onde lhe atribui valores e crenças, ditames que o sistema julga digno de se comportar. Geralmente, quando criança, é tratada com carinho, amor. É paparicada por todos da família e, às vezes, também pela vizinhança e pelos amigos que visitam a residência de seus pais.

Na adolescência, o despertar para a poesia faz ferver os hormônios que o organismo produz dizendo que já é capaz de procriar, a visibilidade do corpo identifica o desejo pelo sexo oposto, a vida ganha mais graça, um sentido até antes inerte ganha forma. Neste instante, o que importa é amar, viver, sonhar. Encanta-se por uma linda jovem e o enlace matrimonial é inevitável. A vida floresce. O trabalho ajusta a comunhão. Do amor que parecia eterno surgem à herança desta jornada. A esposa, radiante, se renova. Mais um sentido para viver. Os filhos, como é bom tê-los.

A festa acaba. O tempo já não é mais o mesmo e ele continua sentado no banco da praça, tendo como companhia apenas as árvores que ajudam a decorar o ambiente. A iluminação fraca continua a ofuscar seu rosto. Pessoas passam e olham. Apenas um olhar discreto. Em movimento, seguem seu caminho. Ali permanece, talvez, a pensar em sua juventude. Bebidas, bailes, garotas. Tempo bom aquele! E a indagar de sua própria desgraça: onde estão os filhos que gerei, que carreguei no colo; a esposa que amei, os sonhos que sonhei?!

A doença já não lhe permite o sabor da fruta. Nem um gole de cachaça. A vida passa, o tempo passa e ele continua imóvel, assiste a tudo calado, taciturno. Na busca do limite entre a vida e a morte, a morte chega à frente e leva seu corpo e sua mente para a vida eterna. Amém!

Francisco de Assis Sousa é professor e cronista. Email: [email protected]

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