Blog do Prof. Francisco de Assis Sousa

Literatura: Minha Vida em Sua Boca e Outros Poemas: uma contextualização histórica (Por Nilvon Batista Brito)


Por Nilvon Batista Brito    

Foto: ReproduçãoMinha Vida em Sua Boca e Outros Poemas foi lançado no dia 01 e 04 de agosto, via You Tube.
Minha Vida em Sua Boca e Outros Poemas foi lançado no dia 01 e 04 de agosto, via You Tube.

Vejo o lançamento do livro MINHA VIDA EM SUA BOCA E OUTROS POEMAS do professor Francisco  de Assis Sousa como um ato de muita coragem e considero  uma obra   transgressora. O lançamento dessa obra é um ato político, apesar de serem poesias eróticas, pois o momento em que nós estamos vivendo, em  que o conservadorismo mostra sua face mais ameaçadora,   publicar um  livro falando  de amor de uma forma voluptuosa, sem “escrúpulos”  e sem medidas, é um posicionamento árduo. O amor por si é transgressor, o verdadeiro amor rompe limites, barreiras e deixa o sujeito passional a deriva. Os personagens históricos  que mais se dedicaram, que mais pregaram o amor em sua plenitude  foram perseguidos, foram odiados e muitos deles foram assassinados, isso por que o amor incomoda, liberta e ameaça a comodidade.   

Não farei aqui uma analise critica da obra, deixo essa tarefa para os literatos. Tentarei analisar a temporalidade em que a obra vem a público, entendendo assim que toda obra de arte é temporal, é o resultado da percepção do autor ao meio em que está inserido, portanto precisamos entender nosso tempo para entender o objetivo  da obra.  Assim vou ilustrar minha fala com uma noticia que saiu no G1, no dia 29 de set de 2017

INTERAÇÃO DE CRIANÇA COM ARTISTA NU EM MUSEU DE SÃO PAULO GERA POLÊMICA

Em “La Bête”, o premiado artista Schwartz, que trabalha há quase 20 anos com coreografia, manipula uma réplica de plástico de uma das esculturas da série e se coloca nu, vulnerável e entregue à performance artística, convidando o público a fazer o mesmo com ele. Uma criança acompanhada de seus pai toca 0 artista.

Pronto. isso foi o suficiente para Movimentos de direita falarem em pedofilia. Juiz e desembargador veem 'histeria'. Museu diz que sinalizou sobre nudez em sala e que trabalho não tem conteúdo erótico. Contudo a exposição foi cancelada.

Esse é o tempo em que estamos vivendo o conservadorismo, apesar de todo o conhecimento cientifico sistematizado ao longo de séculos apresentar o ser humano como sujeito social e ao mesmo tempo individual dotado de inteligência e subjetividades, ressurge de tempos em tempos transformando eventos artísticos e salas de aula em antros de perversão, cobrando costumes, posturas e moralismo  padronizados. Destarte, sabemos que seguir esses padrões resulta quase sempre em falso moralismo, hipocrisia e infelicidade.  

Alguns anos  antes do fatídico evento do MASP,  um  grupo de deputados e militantes de movimentos conservadores impediram a distribuição de cartilhas orientando professores e comunidades escolar em  geral tratar de forma digna alunos de diferentes orientações sexuais, alegando que se tratava de ideologia de gênero, uma expressão que em si nada diz. Como se um professor tivesse o poder de convencer um sujeito a escolher sua opção sexual.  Esses grupos não estão comprometidos com a felicidade do outro, mas com a aparência de normalidade, pouco importa se a pessoa  está feliz ou não. Depressão, suicídio e evasão escolar são realidades presentes nas escolas, e na sociedade de forma geral, muitas vezes esses problemas estão relacionados a exclusão social.

Foto: ReproduçãoCapa do livro Minha Vida em Sua Boca e Outros Poemas.
Capa do livro Minha Vida em Sua Boca e Outros Poemas.

Em, o MAU-ESTAR DA CIVILIZAÇÃO,  Freud  mostra que o ser humano  vive numa busca eterna pela felicidade,  durante muito tempo acreditou-se que a escassez  de  recursos básicos para a sobrevivência como alimento, segurança, liberdade, acesso a educação e aos direitos humanos impedia a felicidade do homem. O Iluminismo e a Revolução Industrial alimentou a utopia de construir um mundo melhor onde todos teriam justiça e direitos iguais, onde o individuo deixaria de ser súdito e passaria a ser cidadão dentro de uma República. Nessa nova configuração, a indústria   começou  a produzir mercadorias em grande escala e  mais acessíveis:  alimentos, roupas, medicamentos,  utensílios domésticos, enfim,  os provimentos materiais que são necessários para a felicidade do ser humano  são produzidos e, pelo menos em  tese, teriam todos acesso fácil.

Dessa forma, a ideia que todos  os problemas da humanidade estariam resolvidos com o progresso, fica em evidencia.   Seriamos felizes para sempre. No entanto, o que vemos  na sociedade moderna capitalista são  pessoas com problemas psicológicos, emocionais, depressão, ansiedade, neuróticos, maníacos depressivos e  pessoas reclusas  em  suas subjetividades. O que estaria acontecendo com a sociedade contemporânea?  Por que temos tantas pessoas infelizes?  O que nos falta? Qual o mal-estar da civilização? A cidadania não era o que precisávamos? E os bens de consumo de primeira necessidade? A Fome não foi resolvida? O que provoca esse mal-estar da civilização? Não atingimos os nossos sonhos, a nossa utopia? Esses são os questionamentos de Freud que, por meio da psicanálise,  tenta entender  o reflexo das conquistas e das não conquistas  do sujeito dentro da sociedade  moderna.

Vamos voltar um pouco na historia para tentar entender os conflitos do individuo em sociedade. Na obra Politica, Aristóteles mostra que o assunto único e principal da Política é uma só, a ciência da felicidade humana, uma certa maneira de viver adotada pela comunidade, que fosse satisfatória à maioria. A política estaria a serviço de uma maneira de viver que levasse à felicidade humana desde seus aspectos materiais até emocionais. Para Aristóteles, o homem  é um  ser social,  viver em sociedade, viver na cidade é um ato político, não existe vida social  sem a política. A ausência da política é a barbárie, a forma da gente viver, defender os nossos ideais, as nossas posições, as nossas realizações na cidade é a política, é a conversa, é o entendimento, é o dizer, é o falar o que você pensa, o que você sente,  ou seja,  o homem é um ser politico. Se frustrar esse direito, o sujeito se torna doente e desarmoniza a sociedade.

Vivemos em um mundo globalizado onde predomina uma democracia, em sua grande maioria, com instituições que garantem os direitos individuais necessários a felicidade do homem, mas, em determinados  momentos,  ao longo da história, quando grupos autoritários chegam ao poder, esses direitos são  negados, inclusive com aparelhos do Estado voltados para isso.  Em um estado autoritário, a primeira manifestação é  podar os desejos, é podar o direito de se expressar livremente, traça-se um padrão moral a ser seguido. Essa configuração foi adotada no Brasil a partir de1964, tempo em que o conservadorismo falava mais alto, no período de Guerra Fria num contexto mundial. A juventude em todo o mundo reagiu por meio de movimentos contraculturais, os hippies, por exemplo, não aceitavam o padrão industrial pré-estabelecido,  se rebelaram e passaram a viver na natureza retornando um modo de vida anterior ao industrial, refutando assim,  todas as suas seguranças alimentar, familiar  e econômica da sociedade moderna,  em troca da liberdade.  

Na pós-modernidade, o caminho inverso, campo/cidade,  também é percebido, por exemplo, aqui em  Picos, um grupo de jovens recém chegado  do interior, encontraram dificuldades de  se integrar  naquele meio social tradicional, Foram  buscar inspiração na estética pós-moderna, como meio de serem  aceitos. No entanto, um dos jovens,  ao assumir um emprego   no   Banco do Brasil,  é pressionado a cortar o cabelo. Resistiu, e ainda hoje, já na terceira idade, mantem o seu cabelo grande. Isso é transgressão, isso é um ato politico.     

Embora estejamos vivendo oficialmente em uma democracia, exista uma sociedade paralela que atua no controle dos costumes, censurando e impedindo a liberdade individual, é o que chamo de ditadura da conveniência. Esses grupos conservadores agem nas empresas, escolas, igrejas e redes sociais cobrando comportamentos morais pré-estabelecidos, com ameaças veladas que, por  vezes, nos calam,  ou escondemos nossas ideias em nome da boa convivência, da harmonia e da pacificação. 

MINHA VIDA EM SUA BOCA E OUTROS POEMAS  é um ato politico porque foge do convencional, por que não se cala, porque grita para o mundo o desejo mais intimo do sujeito, porque   apresenta o erotismo  como parte do ser humano.   Prof. Francisco de Assis Sousa, espero sinceramente que sua obra seja mal entendida, perseguida e odiada, mas não corte nunca o seu cabelo. Abaixo a ditadura da conveniência. 

Nilvon Batista Brito é professor de História    

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