Antropofagia, expressionismo e performance mística no 2º dia da SPFW

O expressionismo abstrato norte-americano e o modernismo brasileiro encontraram a moda como mídia no segundo dia de desfiles da São Paulo Fashion Week.

O expressionismo abstrato norte-americano e o modernismo brasileiro encontraram a moda como mídia no segundo dia de desfiles da São Paulo Fashion Week. Sob o comando da estilista Raquel Davidowicz, a UMA fez alusões sutis ao trabalho caótico e visceral de Cy Twombly, com estampas de rabiscos manuais em peças urbanas e minimalistas, feitas em seda, algodão e cetim. O penteado com galhos de cerejeiras deu um toque nipônico ao styling, referência clara ao local escolhido para a passarela, o centro cultural Japan House. Segundo a estilista, a coleção foi pensada para mulheres de todas as idades e, não à toa, a modelo Suzana Kertzer, de 67 anos, surgiu como um dos destaques. “Ela representa o nicho de mercado da marca, que atende mulheres de todas as idades, em busca de um estilo atemporal”, diz Raquel.

Já a Osklen apresentou referências explícitas à obra de Tarsila do Amaral, cuja pintura orgânica estampou na passarela a diversidade étnica e cultural do Brasil. “O processo criativo começa com uma tela crua em branco. Nas roupas, isso apareceu nas peças em linho e seda, em tons crus”, diz o estilista Oskar Metsavaht. “Além dos quadros mais famosos, como ‘Abaporu’ e ‘Antropofagia’, usamos esboços e rascunhos pouco conhecidos para criar a estamparia”, completa. O lançamento internacional da coleção, em fevereiro de 2018, coincide com a primeira exposição individual da artista nos EUA, quando o MoMA, em Nova York, irá expor mais de 100 de suas obras. Ambas as grifes apostaram no clássico preto e branco, além de um bloco monocromático – mostarda, na UMA, e vermelho, na Osklen, em referência ao autorretrato ‘Manteau Rouge’, de Tarsila.

Outra artista que reverberou na Fundação Bienal foi a norte-americana Agnes Martin, conhecida por seu trabalho místico, na passarela de Paula Raia – que não fez apenas um desfile, mas uma experiência, para usar a palavra da moda. Os convidados receberam um robe de linho cor de rosa claro logo na entrada da Flag, espaço artístico na Vila Madalena. Em seguida, em grupos, percorreram quatro ambientes, nos quais as modelos dançavam e posavam como bailarinas em vez de cruzar a passarela. O resultado foi uma apresentação performática e sensorial, com direito a incenso no ar e quartzo rosa espalhado na decoração. O cristal, aliás, serviu como referência também para a coleção, toda em tons rosados. Algodões, rendas e richelieu ganharam aplicações, bordados vítreos, em uma simetria inspirada em Martin.

“Eu quis sair do desfile convencional e apresentar a minha coleção como uma vivência coletiva, onde todo mundo pudesse entrar no clima da coleção em uníssono”, conta Paula. “A moda é o corpo. Pensar roupa é pensar no corpo de forma completa, emoções, afetos, razão, estética. Propor transformações no corpo é propor transformações no mundo”, diz ela, que considera esta coleção uma adaptação de seu mundo, seu ritmo e sua vivência – “sem pressa, com conteúdo e autenticidade”. É a moda do bem-estar, do wellness, da espiritualidade.

No mesmo clima esotérico, Fabiana Milazzo apresentou criações cheias de transparências e fluidez, em materiais ultraleves e confortáveis. Seus vestidos de festa feitos em seda pura, chiffon e organza, trouxeram uma cartela suave, em tons de azul celeste, amarelo cítrico, off white, rosé e preto. No geral, a modelagem não fugiu do lugar-comum, apresentando decotes, assimetria na cintura e vestidos de lamê italiano ajustados ao corpo. Os bordados exploraram temas surreais e oníricos. “Nossos sonhos nos contam histórias e habitam um mundo onde tudo pode acontecer. Para esta coleção, trazemos os vestidos dos sonhos, literalmente”, diz a estilista. Enfim, um clima zen e meio etéreo trouxe novos ares à maratona de desfiles

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