Denúncias de risco de desabamento aumentam 840% em um mês

Relatórios mensais de ocorrências feitos pela Defesa Civil de Fortaleza apontam que reclamações sobre o possível colapso de prédios passaram de 76 em setembro para 715 em outubro. Regionais II e IV tiveram maiores números

Foto: reprodução/Diário do Nordeste Moradores retiram objetos do Edifício Ana Cristina Holanda
Moradores retiram objetos do Edifício Ana Cristina Holanda

O cuidado destinado à conservação estrutural dos prédios, que deveria ser permanente, mas costumava ser deixado em segundo plano, agora está associado a uma preocupação urgente. A mudança repentina pode ser observada nos relatórios mensais de ocorrências, feitos pela Defesa Civil de Fortaleza. Enquanto os registros de setembro de 2019 apontaram 76 casos de risco de desabamento, no mês seguinte, os casos subiram para 715, o que representa um aumento percentual de aproximadamente 840%.

O coordenador da Defesa Civil, Luciano Agnelo, relata que as ocorrências registradas pela Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops), pelo disque 190, aumentaram após o desabamento do Edifício Andrea, no dia 15 de outubro. "Nós recebemos hoje em torno de 30 a 40 ligações por dia, e a Defesa Civil tem 119 agentes disponibilizados em Fortaleza para fazer esse trabalho de vistoria predial e de casas", diz.

Ele ressalta que a tragédia que acometeu o residencial no bairro Dionísio Torres e seus moradores também surtiu efeito sobre o tempo de resposta da Defesa Civil às chamadas. Atualmente, o órgão possui 700 ocorrências acumuladas para visitar, segundo o coordenador. "Antes do desabamento, a gente tinha dois dias para ir até o local. Se fosse um caso emergencial, era feita uma triagem e a gente ia no mesmo dia para dar uma resposta à população. Hoje, não tem como dar esse prazo".

Conforme os relatórios mensais, os números mais altos de riscos de desabamento saíram das Regionais II, IV e VI. O caso mais recente reforça o cenário de maior temor: ontem (6), o Edifício Ana Cristina Holanda, no Bairro Montese, foi interditado pela Defesa Civil após a entrega de um laudo elaborado por um engenheiro, que aponta que o prédio está colapsado em diferentes pontos. O residencial de quase 40 anos abriga 12 apartamentos, e precisou ser evacuado ainda ontem.

As vistorias no local começaram a ser realizadas pela Defesa Civil há cerca de 15 dias e, desde então, sete moradores optaram por deixar seus apartamentos como precaução. Restaram cinco unidades para serem esvaziadas. "A gente está dando a assistência e acompanhando para fazer a retirada dos moradores do local. No momento, o prédio não corre risco de desabar e, por ter uma longa distância entre um prédio e outro, de garagem, não implica em risco aos prédios vizinhos", explica o coordenador da Defesa Civil.

Alarmante

Moradora do Edifício Ana Cristina Holanda há 19 anos, Aracélia de Almeida dividia o apartamento com seu irmão. Quando o processo de evacuação começou, ela ainda não tinha para onde ir. "Eu gosto muito daqui, e é muito difícil sair de uma hora pra outra. Estou procurando casa há dias, e não encontro. Quando acho, é muito caro, o aluguel dobra. Eu achava que ia ter mais tempo pra sair. Agora, não dá", lamenta Aracélia.

Também na área da Secretaria Regional IV, o Edifício Modigliane foi evacuado há uma semana pelos moradores, alarmados após ouvirem estalos vindos da estrutura. Os residentes do prédio no Bairro de Fátima informaram que reformas nas colunas de sustentação estavam sendo feitas sem o devido escoramento. A empresa "Condus - Gestão de Condomínio", responsável pelo Edifício Modigliane, informou que a última inspeção predial foi feita em 2017 e não constatou nenhuma falha na estrutura do residencial. Laudo técnico foi enviado terça-feira pelo condomínio à Defesa Civil. O órgão deve analisar documento hoje.

"A cidade de Fortaleza é nova. Agora que os prédios estão chegando a uma idade média em torno de 40 anos, por isso a necessidade, por parte da população, de que haja manutenção e inspeção predial, principalmente nos prédios com mais de 30 anos", enfatiza Luciano Agnelo.

O engenheiro José Soares Teixeira Filho, especialista em Engenharia Diagnóstica, reforça a necessidade de manutenção, comparando um prédio com o corpo humano, que também requer cuidados e exames feitos por profissionais qualificados. "Sempre que acontece um susto, um sinistro, as pessoas prestam atenção a algo que deveria ter sido observado há muito tempo. E esse medo é enquanto está recente. Depois, acaba caindo no esquecimento, como foi em março de 2015, depois do colapso da varanda do Edifício Versailles", lembra.

Ele relata que também percebeu um aumento da demanda por seus serviços, após o desabamento ocorrido em outubro. Os pedidos para avaliar prédios geram, em média, de 8 a 14 solicitações por dia, e as situações encontradas pelo engenheiro são críticas.

"Sempre são relacionadas aos elementos estruturais, como vigas, pilares, lajes. Apresentam rachaduras, fissuras. É sinal de que algo anormal está acontecendo na edificação, mas se tivesse sido identificado desde o começo, a manutenção seria mais barata e não afetaria tanto o local".

Inspeção

Entre os bairros onde os pedidos de vistoria - e a presença de situações críticas - são mais frequentes, o engenheiro cita Meireles, Praia do Futuro, Aldeota, Antônio Bezerra, São Gerardo e Jacarecanga. A maioria das vistorias é solicitada para prédios.

O especialista defende que os administradores e proprietários de edificações devem elaborar um plano de manutenção de acordo com o tipo de material empregado na construção, o que pode ser consultado em manuais.

Soares explica que quando a edificação tem idade entre 21 e 30 anos, a inspeção predial deve ser feita a cada três anos. Se foi construída em um período entre 31 e 50 anos atrás, o procedimento torna-se necessário a cada dois anos, e se a idade ultrapassar 50 anos, a inspeção deve ser anual. "Se ele estiver em condições instáveis, de maior risco, a periodicidade diminui".

Os principais danos a serem avaliados devem ser em vigas e pilares, que precisam estar em boas condições, já que são elementos estruturais. "Nem todas as ocorrências são de grau de risco a ponto de evacuar. Por isso, é preciso chamar pessoas qualificadas para vistoriar e elaborar um laudo", enfatiza Soares.

Fonte: Diário do Nordeste

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