Parque Nacional Serra da Capivara é destaque em matéria da Folha

O parque tem a maior e mais antiga concentração de sítios pré-históricos da América

Foto: Reprodução / Web Parque Nacional Serra da Capivara é destaque em matéria da Folha
Parque Nacional Serra da Capivara é destaque em matéria da Folha

As belezas do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizada no sul do Piauí, foram destaque no site Folha de São Paulo, nesta quinta-feira (12).

Estudos científicos confirmam que a cadeia montanhosa de Capivara era densamente povoada na era pré-colombiana.

Confira a matéria da Folha:

Do alto do Parque Nacional da Serra da Capivara, no sul do Piauí, o que se vê, além de uma longa extensão de montanhas, é a vegetação da caatinga dividindo espaço com cânions e paredões de pedra.

A formação mais conhecida é o Boqueirão da Pedra Furada. O buraco aberto pela ação da natureza chama a atenção, mas o destaque está centenas de metros mato adentro.

No boqueirão (fenda profunda) há vestígios da arte e da cultura dos povos que começaram a habitar a região há 12 mil anos.

Na parte de dentro, passarelas de metal erguidas sobre escavações arqueológicas levam para perto de um paredão com cerca de cem metros de altura coberto por desenhos.

A cada passo, uma nova pintura. Há representações de rituais, de sexo, de partos, de animais gigantes e de caçadas.

As cores se mesclam. Além do vermelho, mais comum, há azul e branco. As datações dos vestígios também se misturam: habitantes de 2.000 anos atrás incrementaram desenhos iniciados por seus antepassados, milhares de anos antes.

O Boqueirão da Pedra Furada é o mais acessível e mais famoso dos mais de 1.300 sítios arqueológicos localizados na reserva. A maioria, 950, tem pinturas rupestres (204 estão abertos a visitação de turistas e 17 deles são acessíveis a pessoas com deficiência).

Fundado em 1979 a partir dos esforços da arqueóloga brasileira Niéde Guidon, o Parque Nacional da Serra da Capivara ocupa 91,8 mil hectares, entre as cidades de Canto do Buriti, Coronel José Dias, São João do Piauí e São Raimundo Nonato, no Piauí. Em 1991, foi nomeado pela Unesco de Patrimônio Mundial da Humanidade. A entrada é gratuita.

Com 32 mil habitantes, São Raimundo Nonato é a melhor opção de base. A cidade tem hospedagens simples e restaurantes de comida típica (procure a galinhada com pirão de mulher parida, feito com o caldo da galinhada).

No parque, os guias destacam quatro circuitos. O mais conhecido deles corta o desfiladeiro Capivara e passa pelas tocas da Entrada do Pajaú, do Barro —ambos guardam pinturas rupestres— e do Paraguaio, primeiro sítio investigado pela equipe de Guidon, nos anos 1970. Os demais são o circuito da Serra Branca, o Jurubeba e o do Sítio do Meio.

A arqueóloga trabalhava no Museu do Ipiranga, em São Paulo, quando recebeu a visita do prefeito de Petrolina (PE), cidade a 300 km de onde hoje fica o parque. Ele levou fotos de pinturas rupestres e despertou o interesse de Guidon. Ela conta que o ano era 1963, quando organizava uma exposição sobre arte rupestre do Brasil. “Ele disse que os desenhos eram do sul do Piauí. Eram completamente diferentes de tudo que eu já tinha visto antes”, diz Guidon.

No ano seguinte, ela se mudou para a França, onde seguiu os estudos e se tornou professora, mas manteve em mente o plano de desbravar o sul do Piauí.

Em uma expedição francesa para a Serra da Capivara, a arqueóloga e sua equipe coletaram resíduos de uma fogueira. Ela enviou o material a um laboratório para datação. A fogueira tinha 26 mil anos, o que contrariava as teses majoritárias na época sobre a povoação da América.

“Quando me mandaram o resultado, fui até o laboratório e disse que haviam misturado minhas amostras. Não era possível ter nada tão antigo assim na América. A chefe do laboratório respondeu: continue pesquisando lá, são suas amostras mesmo. Continuamos e chegamos a até 110 mil anos aqui”, diz Guidon.

Acreditava-se, então, que os primeiros Homo sapiens pisaram no continente há cerca de 14 mil anos.

A descoberta da pesquisadora foi gatilho partida para a intensificação da busca por pinturas, ferramentas, artefatos e resíduos. A ideia era comprovar que o povoamento da América começara muito antes do que se pensava.

Deu certo. O crânio de um homem, Zuzu, foi encontrado e datado de 10 mil anos. Também foram achados pedaços de pedra com 50 mil anos, manipulados para servirem de ferramentas.

Mais recentemente, a idade das cinzas de uma fogueira próxima do Boqueirão da Pedra Furada foi estimada em 110 mil anos.

Essas descobertas se somam a evidências no Chile, no Uruguai, no México e nos EUA e indicam que o homem chegou ao continente há ao menos 130 mil anos, por três diferentes rotas.

Além do trajeto já estabelecido entre cientistas, via estreito de Bering, humanos teriam cruzado de barco os oceanos Pacífico e Atlântico.

A história do homem na região do Parque Nacional da Serra da Capivara é contada em museu localizado na sede da Fundação Museu do Homem Americano, na cidade de São Raimundo Nonato. O ingresso custa R$ 20.

Em dezembro de 2018, o próprio parque ganhou um espaço, o Museu da Natureza.

O edifício em formato circular, desenhado pela arquiteta Elizabete Buco, fica em meio à vegetação e aos paredões.

O prédio de 1.700 metros quadrados abriga 12 salas com temas que vão da origem do universo à chegada do homem à região.

O investimento total foi de R$ 13,7 milhões. O resultado é um museu hi-tech, com painéis e telas interativas, projeções de vídeos e até simulador de voos sobre o parque.

As interações ajudam a compreender as mudanças na região, que até 9.000 anos atrás era uma mistura de floresta amazônica com mata atlântica e habitat de animais brasileiros gigantescos.

Fósseis desses bichos, que conviveram com o Homo sapiens, estão expostos. É o caso do tigre-dentes-de-sabre (até 2,5 metros de comprimento), do mastodonte (até 5 metros) e da preguiça-gigante (até 6 metros). No fim do circuito, há uma réplica em tamanho real da preguiça-gigante.

Trata-se de um museu marcado pelos contrastes: entre o seu visual futurista e a natureza da caatinga; entre o passado do homem, contado em milhares de anos, e a história do universo, contabilizada em milhões e bilhões de anos.

(Confira aqui a matéria na íntegra)

Fonte: Folha de São Paulo

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